“Os muezins chamavam à oração da primeira luz quando Averróis voltou a entrar na biblioteca. (No harém, as escravas de cabelos negros haviam torturado uma escrava de cabelos ruivos, mas ele não o saberia senão à tarde.) Algo lhe revelara o sentido das duas palavras obscuras. Com firme e cuidadosa caligrafia juntou essas linhas ao manuscrito: “ Aristu (Aristóteles) denomina tragédia os panegíricos e comédias as sátiras e os anátemas . Admiráveis tragédias e comédias são abundantes nas páginas do Corão e nos ‘mualacas’ do santuário”.
“Sentiu sono, sentiu um pouco de frio. Desenrolando o turbante, olhou-se num espelho de metal. Não sei o que viram seus olhos, porque nenhum historiador descreveu as formas de seu rosto. Sei que desapareceu bruscamente, como se o fulminasse um fogo sem luz, e que com ele desapareceram a casa e o invisível repuxo e os livros e os manuscritos e as pombas e as muitas escravas de cabelos negros e a trêmula escrava de cabelos ruivos e Farach e Abulcásim e os roseirais e talvez o Guadalquivir.”
(A Procura de Averróis, Jorge Luis Borges)
Ao final do conto, Borges relata: “Senti, na última página, que minha narrativa era o símbolo do homem que eu fui enquanto a escrevia, e que, para escrever essa narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever essa narrativa, e assim até o infinito. (No instante em que deixo de acreditar nele, ‘Averróis’ desaparece.)”
Faço uso de uma lição que aprendi aqui: usar de pretensa erudição para encobrir uma realidade banal e mesquinha. E como Averróis, no momento em que crença foi espatifada, desapareci bruscamente numa chama sem luz, bem como todas as palavras que escrevi e todas as relações que travei. Sobrou apenas o cheiro da fumaça.
Que outro que venha a ler essas palavras decida se tudo isso o que se passou na Cabana Solaris foi uma tragédia ou uma comédia (Leia-se o Shelley abaixo mais uma vez).