O silêncio branco do papel é diferente do silêncio do espírito sagrado. Este pode ser muito ruidoso e assustador. Pode proporcionar a possibilidade de muitas sinestesias: evocar calor ou frio, fazer perceber melhor as variações dos cheiros, das texturas das coisas que tocam os corpos. O silêncio do espírito sagrado amplifica os sentidos.
-
Houve uma performance no encontro de quinta-feira.
A performance que consagrou a Cabana, assim me pareceu. Talvez uma espécie de cerimônia-ritual para marcar seu nascimento espiritual.
Quando cheguei, a Lilian preparava o ambiente. Cobria de branco os bancos e a mesa, mapeou um caminho com papéis brancos. Fazia essas coisas com grande cuidado. Todos na Cabana em silêncio. Preparado o ambiente, ela começou a preparar-se. Um belo espetáculo, que se relaciona muito com os as duas palavras, ou cifras, que são repetidamente discutidas ali: embodied e umwelt.
Sua performance, se descrita de modo mecânico, fica mais ou menos assim: Lilian, vestida de branco, posta-se de pé, diante do caminho de folhas de papel branco que levam até um banco que serve de degrau para se subir à mesa, sobre a qual assentam dois outros bancos. Ela avança, sobe o degrau e a mesa e senta-se no último dos bancos, de costas para o primeiro. Alguém vai até uma bancada e apanha um pedaço específico de linha, corta e segue pelo mesmo caminho percorrido pela Lilian e senta-se atrás e junto dela. A linha é entregue a ela e uma palavra é sussurrada nos seus ouvidos. Quem subiu une-se à ela, coloca as mãos sobre as suas mãos. Lilian coloca uma agulha na linha, toma um pedaço de pano e começa a bordar a palavra que lhe fora confiada. Depois de terminado, o visitante volta pelo caminho de onde veio, e outro vai em seu lugar.
Essa é a descrição mecânica do evento.
Uma descrição mais real começaria pelo silêncio. Um silêncio espesso que nos envolveu, que modificou intensamente a percepção do tempo e do lugar. Cada um que subiu, que entregou a sua palavra e se entregou à Lilian, o fez do modo diferente. Alguns estavam tensos, outros serenos. Alguns se fundiram com ela, alguns avançaram sobre ela, outros foram tomados por ela. Os gestos eram largos, tranqüilos, obedecendo aos ritmos dos corpos, das respirações em harmonia. Lilian bordava com as mãos do visitante sobre as dela. O silêncio era diferente para cada palavra que foi bordada, que foi urdida por seres fundidos e depois inscrita no universo.
Eu percebia o tempo como algo muito ligado ao silêncio das pessoas ali presentes, e era um silêncio de se perceber fazendo parte de uma cerimônia inaugural. O silêncio de ser nomeado. O silêncio do espírito consagrado.
Não houve discussão teórica nesse dia, nem houve construção.
-
(VIVER – PULSAR – VERBO – LUZ – VERMELHO – RELAÇÃO – AR – CORTE – ME ESQUENTA)
nota de Giovanna Guerra Nogueira sobre o Dia 15:
(Passagem perdida do relatório: Ápice da quinta feira – Rubens sobe na mesa. O ritual que antecede a subida já é por si só mágico. Por um momento Rubens brinca com o pedaço de linha que escolheu, como se estivesse pintando o caminho para a subida. De repente, ele se dá conta que o tamanho da linha é exatamente o comprimento existente entre seus braços abertos. Neste momento ele se ajoelha por alguns instantes, e deita-se no chão de barriga para baixo em forma de cruz com a linha percorrendo o espaço entre um braço e outro.
Quando Rubens sobe é maravilhoso, ele toma conta da Lilian, atravessa-a, por um momento penso que ela não aguentará sua intensidade. É um momento de puro êxtase. Lindo, mágico, um milagre. E para finalizar, como que para agradecer a fortaleza de suportar aquele corpo tão intenso sobre o seu, Rubens se ajoelha aos pés de Lilian e fica ali por alguns minutos e ela em resposta se debruça sobre ele. A palavra: VERBO.)