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A palavra inaugural é CORPO.

A palavra final é CALOR.

Entre elas, o universo, uma história completa do início ao fim, uma vida e muitas mortes.

Ou várias vidas e uma só morte.

Se fosse definir o que foi o processo da Oficina da Cabana, talvez eu usasse um verbo: NOMEAR.

O ato mais sagrado, mais secreto, mais poderoso e íntimo que existe. Nada é tão potente como nomear, descobrir o nome real das coisas e dos seres.

Porque a Cabana Solaris foi, acima de tudo, um ritual iniciático. Cada indivíduo que estava ali era um menino de doze anos, pronto para colocar o braço dentro do recipiente cheio de formigas nervosas e agressivas. Todos ansiosos por saber: passarei pelo rito com dignidade?

E saberei nomear o totem que tenho diante de mim, todas as horas do meu dia? Porque antes de destruí-lo, preciso dizer seu nome, transformá-lo em som concreto, que será propagado pelo vento e percorrerá toda a terra até desaparecer.

O gato (que é a solução para a resistência) só pode acontecer se cada um souber nomear seu próprio totem.

E cada um está sozinho nessa hora.

Talvez por isso na reunião final houve uma certa atmosfera de fado português.

As relações que se cruzam, os seres que são atravessados, a lacuna que é o ser, o corpo que precisa se fazer existir, o ambiente subjetivo, as máquinas de fazer sentido, a crença, a epifania, o milagre, o gravíssimo, a desconstrução, a construção, a afirmação, o chão, o espaço e o tempo. O mapeamento de tudo isso. Obsessão.

Esses foram pontos cartográficos nos quais paramos. O mapeamento do cosmos é quase infinito, e a Oficina da Cabana foi um fragmento dessa tentativa. Porque sem um mapa, o espírito se perde no vácuo e no silêncio. Navegar à deriva no universo, sem pontos cardeais, é desesperador. É preciso que um louco obsessivo, ou um xamã, tome para si a tarefa de mapear o cosmos, que torne possível fazer alguma leitura dele, que faça algo saltar da cacofonia cruel do universo.

Na Cabana Solaris, Rubens Espírito Santo foi o xamã-cartógrafo, o ser que lançava seu espírito em vôo sobre a terra devastada e que voltava com as latitudes e longitudes das ilhas de paz e de tormento que só podem ser vistas do alto.

No final, acho que nós todos nos perguntávamos: serei capaz de levantar vôo e de construir meu próprio mapa? Serei capaz de reconhecer as coisas do alto, serei capaz de ver sem vícios? Serei capaz de nomear o que vejo, sem medo nem ansiedade? Serei capaz de ir para a lacuna, e depois voltar?

Um espírito soprou em meu ouvido no primeiro dos encontros: corpo.

E soprou no último deles: calor.

O calor é a prova de estar vivo, de existir.

Saberei o nome do meu totem quando sentir meu corpo queimar. E sei que nesse momento, bastará um sopro para que ele desabe de uma vez por todas.

Durante todo o processo da Cabana, joguei fora muitos cadáveres. Sinto-me mais leve por ter me livrado de parte da minha carga inútil. Mas outra parte está comigo, resistindo furiosamente e rindo das minhas tentativas de saber nomeá-la.

A Cabana Solaris ofereceu-me algumas estratégias. Através do caminho do xamã.

Ficar doente. Encontrar-se na lacuna. Alçar vôo. Mapear o território. Nomear as coisas. Nomear a doença. Curar-se.

E então, levantar e caminhar sob a luz do sol da manhã.

Aquela época morreu para sempre, criança,

Afogada, congelada, morta para sempre!

Nós olhamos para o passado

E encaramos perplexos

Os espectros pálidos e assustados

De esperanças que você e eu lançamos

À morte no escuro rio da vida.

A corrente que olhamos então, passou;

Suas ondas não retornarão;

Mas nós ficamos aqui

Numa terra solitária,

Como túmulos a marcar a memória

De esperanças e medos que fogem e se apagam

Na luz da manhã opaca da vida.

(Percy Bysshe Shelley, 05 de novembro de 1817)

É preciso que o pensamento de ciência – pensamento de sobrevôo, pensamento do objeto em geral – torne a se colocar num “há” prévio, na paisagem, no solo do mundo sensível e do mundo trabalhado tais como são em nossa vida, por nosso corpo, não esse corpo possível que é lícito afirmar ser uma máquina de informação, mas esse corpo atual que chamo meu, a sentinela que se posta silenciosamente sob minhas palavras e sob meus atos. É preciso que com meu corpo despertem os corpos associados, os “outros”, que não são meus congêneres, como diz a zoologia, mas que me freqüentam, que freqüento, com os quais freqüento um único Ser atual, presente, como animal nenhum freqüentou os de sua espécie, seu território ou seu meio. Nessa historicidade primordial, o pensamento alegre e improvisador da ciência aprenderá a ponderar sobre as coisas e sobre si mesmo, voltará a ser filosofia…

(M. Merleau –Ponty, O Olho e o Espírito)

O xamã lança seu espírito em vôo, e do alto estuda o relevo da paisagem, seu esqueleto real e escondido dos homens normais. O espírito percorre a terra, fora do tempo, e percebe as relações, as que são mais verdadeiras, estabelecidas pelas coisas. Ele vê as coisas pela primeira vez, ele nomeia essas mesmas coisas.

Nomear é o ato mais poderoso do xamã. Nomear é a arte antes da arte, é a ciência antes da ciência. É o ato que inaugura o mundo dos homens, que cria a cifra primeira que é a poesia. Gera o calor do atrito entre o nome e a coisa real. Toda linguagem é símbolo, e o símbolo pode ser mais ou menos próximo da coisa real.

O xamã, em seu vôo mágico, percebe as camadas de detritos que deformam os símbolos das coisas. E isso lhe apresenta um dilema: que língua utilizar com seu povo? A língua corriqueira e morta, disforme e esvaziada, porém que é compreensível por todos? Ou a língua prístina, dos signos puros e primeiros, que só ele conhece e que o enche de terror?

Ou o xamã faz-se entender com a língua defunta, ou exila-se do mundo por sua língua apavorante de signos reais.

Três propostas de inquérito levantadas: a matéria enquanto elemento pré-científico é a terceira. Antes da ciência, antes da técnica, antes do valor. A matéria que será nomeada pelo xamã, nem antes nem depois do momento adequado.

A Cabana tornou-se o lugar sagrado, de onde o xamã alça seu vôo miraculoso e percorre as regiões que são vedadas aos homens ordinários. Na Cabana, o espírito do xamã paira sobre os seres e as coisas. É desse lugar que Rubens responde as perguntas, nesse local de “historicidade primordial”.

Não por acaso falamos tanto sobre o caráter iniciático da Cabana Solaris. Quem persistiu ali do começo até agora não passou incólume pelo processo. Em diferentes graus, todos mudaram. E mudaram além do óbvio, além das mudanças naturais da passagem do tempo.

Acho que há uma palavra para o início da Cabana e outra para o final.

A palavra inaugural é CORPO.

A palavra final é CALOR.

Alguém pergunta sobre a viabilidade de uma espécie de Cabana portátil. “Uma bíblia, única, pessoal” é a resposta de Rubens. Isto seria, sem dúvida, uma maneira de tornar concretos todos os milagres, todas as epifanias vivenciadas naquele espaço, e que foram possibilitadas por aquele espaço. Que cada um escreva seu livro sagrado, que cada um seja seu próprio profeta que fala as línguas dos deuses e dos diabos e que pode, eventualmente, eximir-se de falar qualquer língua de bem e de mal.

A Cabana iniciou-se com o corpo e o que se relaciona com ele, com os corpos associados, os “outros”, que não são meus congêneres, como diz a zoologia, mas que me freqüentam, que freqüento, com os quais freqüento um único Ser atual, presente, como animal nenhum freqüentou os de sua espécie, seu território ou seu meio.

Ou, como disse o próprio Rubens, um corpo total, sem órgãos, sem trama. Uma espécie de corpo glorioso humano, demasiado humano, que se fez glorioso através da falha e da falta, e não da abundância e da perfeição.

Uma pergunta da Silvia do dia anterior é destrinchada. Ela havia perguntado:

Como você (Rubens) percebe o corpo dos integrantes da Missão Solaris, do início até o momento?

Desmonta-se, amplia-se, divide-se, desdobra-se a questão. Ela torna-se um objeto manipulável. Um objeto sujeito à dissecação. Por que essa pergunta e não outra? Ela (a pergunta) é essencial? Ela (a pergunta) pode ser feita de outro modo? Há realmente mudança no corpo? Há permanência nessa mudança?

Resposta: cada um tenta tirar a cabeça da lama, cada um a seu modo, uns mais, outros menos.

O corpo é a obsessão da Cabana Solaris.

É disso que tratamos o tempo todo ali: o corpo cognitivo, o corpo espiritual, o corpo sensível, o corpo físico/biológico e, por extensão, o corpo da obra.

Há um conto de Borges em que um santo decide sonhar um homem e impô-lo à realidade. Decide, após os prestar os ritos devidos e sagrados, sonhá-lo todas as horas possíveis de seu dia, incansavelmente, em todos os detalhes, para que nunca, em nenhuma circunstância, esse homem sonhado pudesse duvidar que não fosse um homem concreto e corpóreo, como qualquer um de nós. Só o fogo saberia da condição de sonho do homem sonhado.

Nesse encontro de sexta, fiquei pensando no lugar de fogo que Rubens ocupa. Senti que meu corpo e meu espírito queimavam quando estive no seu lugar, respondendo as perguntas. E agora eu penso se isso não era exatamente o fogo me expulsando por conhecer minha condição de sonho, de corpo que ainda não foi imposto à realidade.

Dia após dia, o santo de Borges recusou candidatos a corpo e a espírito por indignos de serem e de estarem. Não mereciam existir, por débeis que eram.

E quantos de nós não somos igualmente débeis? Frágeis e tíbios, incapazes de ocupar o espaço exíguo que nos foi cedido, muito menos de expandir esse espaço à força. Não apreendemos as coisas, não nos apropriamos delas por delicadeza.

E a maquinaria do mundo ri e aplaude a nossa timidez. Como facilitamos seu trabalho, flutuando à deriva (já que não seguimos nossos desejos, que nem sabemos quais são), sendo recolhidos pelos ganchos enferrujados dessa máquina de moer subjetividades. Matéria prima fácil e barata.

Como se combate isso?

Aprendendo a fazer escolhas.

Filtrando as prioridades.

Escolhendo adequadamente.

Atacando furiosa e obsessivamente.

Tomando do cálice do desejo até as fezes.

Até as fezes.

Quero sentar no lugar do fogo e não me queimar.

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não vivemos

a completude de nosso ser através de cada

partícula dos nossos

corpos

no espaço absoluto

dos nossos corpos

às vezes somos

joelhos

às vezes pés

às vezes pulmões

às vezes fígado

às vezes membrana

às vezes útero

às vezes ânus

às vezes nariz

às vezes sexo

às vezes coração

às vezes saliva

às vezes urina

às vezes alimento

às vezes esperma

às vezes excremento

às vezes idéia

não estamos apenas

dispersos através dos

nossos corpos

estamos também

dispersos

no exterior

das coisas

(Antonin Artaud)

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Deve ser o mais difícil dos relatórios.

Mas, de qualquer forma, eles cada vez mais estão difíceis e complicados de escrever. As reuniões tornaram-se mais complexas e densas. O ar é chumbo.

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(rubens grafita sobre a lona: cabana solaris persistência no real)

Depois do trabalho, a seqüência de perguntas. Que foram dissecadas e não respondidas.

Uma pergunta de Rubens para todos: que lugar ele ocupa para responder as perguntas?

(quem esteve nesse lugar sabe que queima. é o tal do lugar do gravíssimo: não se fica ali por esporte, por diversão. é grave e solitário. todos que estiveram ali, com exceção do andré, se expuseram, e acharam o lugar incômodo)

Que lugar?

Do seu real.

Do bobo da corte.

Do vidente.

Do educador.

Do vivido.

Da apropriação.

Da curiosidade.

Do oráculo.

Do sobrenatural.

Qual o significado do totem? As respostas ficam entre três conceitos: sustentação, poder e incômodo. Sem dúvida que podem ser as três coisas ao mesmo tempo.

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Mais perguntas, de um para o outro, do outro para o um. Pulo esta parte. A fala longa do final do encontro eclipsou o que ocorrera antes.

Rubens me perguntou se eu tinha alguma idéia do porquê  ele havia apagado as luzes principais. Minha resposta, é óbvio, foi um espelho de quem eu era ali, naquele dia, naquele instante.

E Rubens começou a falar, desse lugar gravíssimo que escrevi há pouco. Sobre a persistência no real; sobre o potencial que não se realiza.

Não consigo dar conta desse dia. Por inúmeras vezes durante a fala espessa de Rubens, quis não estar ali. Preferiria estar num lugar mais fácil, cômodo e confortável, qualquer lugar que não fosse aquele. Perdi a noção do tempo, perdi as referências do lugar. A realidade ficou turva. Não sabia onde estava.

Percebo (e isso agora, enquanto escrevo) como é difícil conceituar o que é a consciência, como ela é algo que não se separa do ambiente que a contém. Houve momentos em que a única coisa que existia era a voz de Rubens, tudo o mais era indistinto e de existência questionável.

(obsessivamente falou-se durante os encontros sobre os termos embodied e umwelt. obsessivamente falou-se hoje sobre obsessão, embodied e umwelt. obsessivamente, obstinadamente, freneticamente, enlouquecidamente.)

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Via algo do rosto de Rubens sob uns reflexos verdes e violetas: disforme, fala longa, ritmo lento e pesado. Às vezes pensei que o compreendia, e que isso não se dava pelas palavras, isso acontecia de um outro modo, mais intenso e direto. O tempo expandiu-se, e eu me sentia muito mal. Sentia que as coisas que aconteciam ali eram muito maiores do que eu, me sentia incrivelmente pequeno e limitado. Quando Rubens nos disse que aquele totem era uma mortalha que cada um carregava e que deveria ser rasgada e destruída, senti o cansaço dos cansaços. O totem pareceu-me imenso, infinito na sua altura: um compêndio de leis inúteis compiladas por toda a vida, transformadas em diamante podre, duro, inquebrável, exalando o odor dos treze mil e quinhentos cadáveres de uma história inútil. O totem não é sagrado, como eu havia dito. Ele é sagrado e impuro no mesmo corpo. É o objeto que se deseja, e é o objeto que não se pode tocar. É tabu.

Fui para casa a pé. Queria sentir o vento batendo na cara e me perder na escuridão, que era a mesma escuridão que tinha por dentro dos meus olhos. Perdi o sono às quatro da manhã. Sentei na poltrona na escuridão, sem óculos. Manchas de cinzas e pretos à minha frente, só manchas. Elas eram, entretanto, estáveis. Persistiam, e isso me pareceu fabuloso. A persistência das coisas é que dá a ilusão da realidade.

(fazemos um mapa do lado de fora. Um mapa estelar com pontos mais ou menos destacados. entre eles uma serpente vermelha, abrangendo todo o espaço. no mahabharata consta que nós somos fragmentos do sonho do deus vishnu, que dorme sobre as costas da serpente ananta, que flutua sobre o oceano cósmico. quando vishnu despertar, o universo deixará de existir.)

Cabana Solaris é a persistência no real.

E persistir é a Crueldade.

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(Fotos por Fabiola Chiminazzo)

Depois do sagrado, a profanação.

Entro pelo corredor, avanço em direção à luz violeta e olho pela abertura de entrada. O piso está coberto de tinta vermelha. Na mesa, mais tinta derramada. Duas circunferências desenhadas no chão, uma vermelha e outra preta. Bancos com traços apressados de tinta, o bordado feito pela Lilian no dia anterior irreconhecível, encharcado com tinta guache. Paredes e mapas pichados.

Volto meu olhar para as pessoas, e todos ali meio passados… A Cabana sofrera um atentado.

E nem fazia muito tempo, já que a tinta ainda estava fresca. Suponho que os perpetradores tinham pressa, dada a timidez do ataque. Muito frouxo. Destruir também não é fácil e demanda tempo e profissionalismo. Amadores prestam um serviço muito ruim. Mas é muito curioso o tipo de reação que a Cabana provoca. Ela exerce um fascínio tão grande que alguém não consegue se conter e invade um lugar para depredá-lo, sem se dar conta que este gesto trai o desejo recalcado de PARTICIPAR daquilo que se está destruindo.

Conversamos um pouco, e passamos a limpar a sujeira. Em pouco tempo, já não se podia saber do que havia ocorrido. Simples assim. E o bordado da Lilian foi erguido e transformado num estandarte.

O resto do encontro foi só de construção. Tudo sendo executado rapidamente. Acho que ficamos mais concentrados e mais ligados aos materiais. Rubens pediu que fizéssemos quatro pranchas com a madeira. Parecia um caixão, ou talvez a cama de Procusto, segundo ele (que não havia nos dito qual a finalidade das pranchas). Novo teto (o terceiro), novas luzes.

Juntamos as pranchas e colocamos o objeto em pé: era um totem, um obelisco.

Seria colocado em cima da mesa, mas ficou alto demais. Resolve-se o problema abrindo um buraco na mesa.

Hoje, a Cabana tem um nome, tem um estandarte; tem um objeto bruto, que foi construído rápida e furiosamente e que é agora um símbolo (um símbolo dentro de outro símbolo). Um monumento e uma cifra.

Pareceu-me que estávamos tornando concreta a poesia primeira, aquela que antecede a fala. Um objeto bruto, que se recusa a apenas representar algo (isso seria sacrilégio). O totem que foi erigido É a própria coisa. É a lacuna materializada. Nós sabemos que é isso.

Terminado tudo, ficamos ao redor do obelisco, olhando para ele, feito os hominídeos de 2001.

Num dia, o sagrado. No outro, a profanação.

Pois foi a profanação que propiciou a materialização do sagrado. A materialização do silêncio que antecede o entendimento e a aceitação.

O silêncio branco do papel é diferente do silêncio do espírito sagrado. Este pode ser muito ruidoso e assustador. Pode proporcionar a possibilidade de muitas sinestesias: evocar calor ou frio, fazer perceber melhor as variações dos cheiros, das texturas das coisas que tocam os corpos. O silêncio do espírito sagrado amplifica os sentidos.

-

Houve uma performance no encontro de quinta-feira.

A performance que consagrou a Cabana, assim me pareceu. Talvez uma espécie de cerimônia-ritual para marcar seu nascimento espiritual.

Quando cheguei, a Lilian preparava o ambiente. Cobria de branco os bancos e a mesa, mapeou um caminho com papéis brancos. Fazia essas coisas com grande cuidado. Todos na Cabana em silêncio. Preparado o ambiente, ela começou a preparar-se. Um belo espetáculo, que se relaciona muito com os as duas palavras, ou cifras, que são repetidamente discutidas ali: embodied e umwelt.

Sua performance, se descrita de modo mecânico, fica mais ou menos assim: Lilian, vestida de branco, posta-se de pé, diante do caminho de folhas de papel branco que levam até um banco que serve de degrau para se subir à mesa, sobre a qual assentam dois outros bancos. Ela avança, sobe o degrau e a mesa e senta-se no último dos bancos, de costas para o primeiro. Alguém vai até uma bancada e apanha um pedaço específico de linha, corta e segue pelo mesmo caminho percorrido pela Lilian e senta-se atrás e junto dela.  A linha é entregue a ela e uma palavra é sussurrada nos seus ouvidos. Quem subiu une-se à ela, coloca as mãos sobre as suas mãos. Lilian coloca uma agulha na linha, toma um pedaço de pano e começa a bordar a palavra que lhe fora confiada. Depois de terminado, o visitante volta pelo caminho de onde veio, e outro vai em seu lugar.

Essa é a descrição mecânica do evento.

Uma descrição mais real começaria pelo silêncio. Um silêncio espesso que nos envolveu, que modificou intensamente a percepção do tempo e do lugar. Cada um que subiu, que entregou a sua palavra e se entregou à Lilian, o fez do modo diferente. Alguns estavam tensos, outros serenos. Alguns se fundiram com ela, alguns avançaram sobre ela, outros foram tomados por ela. Os gestos eram largos, tranqüilos, obedecendo aos ritmos dos corpos, das respirações em harmonia. Lilian bordava com as mãos do visitante sobre as dela. O silêncio era diferente para cada palavra que foi bordada, que foi urdida por seres fundidos e depois inscrita no universo.

Eu percebia o tempo como algo muito ligado ao silêncio das pessoas ali presentes, e era um silêncio de se perceber fazendo parte de uma cerimônia inaugural. O silêncio de ser nomeado. O silêncio do espírito consagrado.

Não houve discussão teórica nesse dia, nem houve construção.

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(VIVER – PULSAR – VERBO – LUZ – VERMELHO – RELAÇÃO – AR – CORTE – ME ESQUENTA)

nota de Giovanna Guerra Nogueira sobre o Dia 15:

(Passagem perdida do relatório: Ápice da quinta feira – Rubens sobe na mesa. O ritual que antecede a subida já é por si só mágico. Por um momento Rubens brinca com o pedaço de linha que escolheu, como se estivesse pintando o caminho para a subida. De repente, ele se dá conta que o tamanho da linha é exatamente o comprimento existente entre seus braços abertos. Neste momento ele se ajoelha por alguns instantes, e deita-se no chão de barriga para baixo em forma de cruz com a linha percorrendo o espaço entre um braço e outro.

Quando Rubens sobe é maravilhoso, ele toma conta da Lilian, atravessa-a, por um momento penso que ela não aguentará sua intensidade. É um momento de puro êxtase. Lindo, mágico, um milagre. E para finalizar, como que para agradecer a fortaleza de suportar aquele corpo tão intenso sobre o seu, Rubens se ajoelha aos pés de Lilian e fica ali por alguns minutos e ela em resposta se debruça sobre ele. A palavra: VERBO.)

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Este relato está todo quebrado.

Quebrado como um objeto que manipulamos demais: abrimos, dobramos, fechamos, fazemos força para virá-lo do avesso e ver o que há no seu interior (e o que há é de difícil compreensão), tornamos a colocá-lo no lugar. Até que ele quebra.

O que se faz então é juntar os cacos prá tentar colocar as coisas como estavam antes. Mas é impossível. Uma peça do interior fica prá fora, outra se perdeu, uma parte continua amassada (distorcida), e a coisa fica diferente do que era. Mas rememorar as coisas é meio assim, não é? É montar a maquinaria de um relógio arrebentado usando martelo, furadeira e chave inglesa, e sem manual de instruções.

Reunião porrada. Difícil transcrever para um texto a quantidade espantosa de informações desse encontro. Não descubro um modo de concatenar todas as idéias, questionamentos e respostas do dia. Tentarei fazer uma espécie de encadeamento do que me chamou a atenção no encontro. Que começou no ponto em que a reunião anterior havia sido interrompida.

(pouco antes do começo, conversava no boteco com o thiago, que refletia sobre o tempo, sobre a percepção de que há várias camadas de tempo. me lembro disso agora, enquanto tento rememorar os acontecimentos, e acabo tendo uma percepção distorcida da passagem do tempo durante a reunião. parece que durou um dia todo.)

Trajeto por caminho do artista. Remissão ao texto de Sérgio Bolliger. Uma escada para fora do que é arte. Curioso: nesse dia, ao ouvir Rubens falar do caminho do artista, lembrei do caminho da espada, dos samurais. Caminho sem volta, no qual o domínio da lâmina tinha a mesma importância que o domínio da poesia (e também da caligrafia). Rigor e disciplina. Cifra: a tríade da produção do artista.

(e falamos de mestres e de discípulos, de um mestre que é discípulo de outro mestre, que por sua vez é discípulo de mais um outro mestre, e assim interminavelmente. rubens encerra a questão: não é porque tenho um filho que meu pai deixa de ser meu pai.)

Lugar por sacrifício. O deus que se imola. Obsessão: uma idéia, uma única idéia, uma única pergunta. Cifra: Tarkovsky.

(percepção de tempo distorcida: troca de lugares, mais uma vez. andré primeiro, depois eu. mal consigo me lembrar do que me foi perguntado, nem do que foi perguntado ao andré. lembro que, num belo gesto, ele tirou os sapatos antes de se sentar na cadeira do rubens. E lembro do rubens dando voltas ao redor da mesa, feito bicho nervoso. tudo isso deve ter durado alguns minutos. pareceram horas, para mim. muito depois alguém perguntou o que era o calor e rubens respondeu: é o beuys andando na neve.)

E falamos do acanhamento da arte brasileira. Da distância que há entre a prática e a teoria. Que pode muito bem ser ilustrada pelo fato de que não há grandes artistas lecionando. Ou, quando o fazem, isso se dá por meio da Instituição, que impossibilita um contato mais próximo.

(tive um professor que era um grande artista quando estudei na eca. mas o contato era tão distante, e tão mínimo, que ele parecia mais com uma aparição do que com um professor corpóreo. a sensação que eu tinha é que tudo o que fosse do universo da arte era, necessariamente, distante. não havia escada para fora, nem para dentro. apenas picos de montanhas ilhados por névoa densa e perpétua.)

Rubens nos fala de sua relação com Christophe Kotanyi. Nisso há disciplina, há rigor. Penso que a resposta para a grande pergunta do André está na trajetória de Rubens. Sua luta contra a ignorância, contra a ilusão da projeção, no caminho que trilhou, e no lugar misterioso em que está.

(alguém pergunta sobre intuição. rubens prefere o termo cognição inconsciente. alguém pergunta sobre a pergunta que não se faz. rubens responde que não se deve fazer.)

No texto de apresentação do livro do Rubens, a Ângela escreveu muito bem: “A escassez de envergadura intelectual nos golpeia em cheio. O apreço pelo conhecimento ainda é frágil, sem vigor. Isto se revela em nossa produção e não produção”.

Daí a incitação à construção, à criação de um teto (não se falou da infelicidade dos lugares onde não existe teto?), ao caminho da espada que é o caminho do artista, a encarnar um nome. Incitação à ipseidade.

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(em espera)

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