É preciso que o pensamento de ciência – pensamento de sobrevôo, pensamento do objeto em geral – torne a se colocar num “há” prévio, na paisagem, no solo do mundo sensível e do mundo trabalhado tais como são em nossa vida, por nosso corpo, não esse corpo possível que é lícito afirmar ser uma máquina de informação, mas esse corpo atual que chamo meu, a sentinela que se posta silenciosamente sob minhas palavras e sob meus atos. É preciso que com meu corpo despertem os corpos associados, os “outros”, que não são meus congêneres, como diz a zoologia, mas que me freqüentam, que freqüento, com os quais freqüento um único Ser atual, presente, como animal nenhum freqüentou os de sua espécie, seu território ou seu meio. Nessa historicidade primordial, o pensamento alegre e improvisador da ciência aprenderá a ponderar sobre as coisas e sobre si mesmo, voltará a ser filosofia…
(M. Merleau –Ponty, O Olho e o Espírito)
O xamã lança seu espírito em vôo, e do alto estuda o relevo da paisagem, seu esqueleto real e escondido dos homens normais. O espírito percorre a terra, fora do tempo, e percebe as relações, as que são mais verdadeiras, estabelecidas pelas coisas. Ele vê as coisas pela primeira vez, ele nomeia essas mesmas coisas.
Nomear é o ato mais poderoso do xamã. Nomear é a arte antes da arte, é a ciência antes da ciência. É o ato que inaugura o mundo dos homens, que cria a cifra primeira que é a poesia. Gera o calor do atrito entre o nome e a coisa real. Toda linguagem é símbolo, e o símbolo pode ser mais ou menos próximo da coisa real.
O xamã, em seu vôo mágico, percebe as camadas de detritos que deformam os símbolos das coisas. E isso lhe apresenta um dilema: que língua utilizar com seu povo? A língua corriqueira e morta, disforme e esvaziada, porém que é compreensível por todos? Ou a língua prístina, dos signos puros e primeiros, que só ele conhece e que o enche de terror?
Ou o xamã faz-se entender com a língua defunta, ou exila-se do mundo por sua língua apavorante de signos reais.
Três propostas de inquérito levantadas: a matéria enquanto elemento pré-científico é a terceira. Antes da ciência, antes da técnica, antes do valor. A matéria que será nomeada pelo xamã, nem antes nem depois do momento adequado.
A Cabana tornou-se o lugar sagrado, de onde o xamã alça seu vôo miraculoso e percorre as regiões que são vedadas aos homens ordinários. Na Cabana, o espírito do xamã paira sobre os seres e as coisas. É desse lugar que Rubens responde as perguntas, nesse local de “historicidade primordial”.
Não por acaso falamos tanto sobre o caráter iniciático da Cabana Solaris. Quem persistiu ali do começo até agora não passou incólume pelo processo. Em diferentes graus, todos mudaram. E mudaram além do óbvio, além das mudanças naturais da passagem do tempo.
Acho que há uma palavra para o início da Cabana e outra para o final.
A palavra inaugural é CORPO.
A palavra final é CALOR.
Alguém pergunta sobre a viabilidade de uma espécie de Cabana portátil. “Uma bíblia, única, pessoal” é a resposta de Rubens. Isto seria, sem dúvida, uma maneira de tornar concretos todos os milagres, todas as epifanias vivenciadas naquele espaço, e que foram possibilitadas por aquele espaço. Que cada um escreva seu livro sagrado, que cada um seja seu próprio profeta que fala as línguas dos deuses e dos diabos e que pode, eventualmente, eximir-se de falar qualquer língua de bem e de mal.
A Cabana iniciou-se com o corpo e o que se relaciona com ele, com os corpos associados, os “outros”, que não são meus congêneres, como diz a zoologia, mas que me freqüentam, que freqüento, com os quais freqüento um único Ser atual, presente, como animal nenhum freqüentou os de sua espécie, seu território ou seu meio.
Ou, como disse o próprio Rubens, um corpo total, sem órgãos, sem trama. Uma espécie de corpo glorioso humano, demasiado humano, que se fez glorioso através da falha e da falta, e não da abundância e da perfeição.