A palavra inaugural é CORPO.
A palavra final é CALOR.
Entre elas, o universo, uma história completa do início ao fim, uma vida e muitas mortes.
Ou várias vidas e uma só morte.
Se fosse definir o que foi o processo da Oficina da Cabana, talvez eu usasse um verbo: NOMEAR.
O ato mais sagrado, mais secreto, mais poderoso e íntimo que existe. Nada é tão potente como nomear, descobrir o nome real das coisas e dos seres.
Porque a Cabana Solaris foi, acima de tudo, um ritual iniciático. Cada indivíduo que estava ali era um menino de doze anos, pronto para colocar o braço dentro do recipiente cheio de formigas nervosas e agressivas. Todos ansiosos por saber: passarei pelo rito com dignidade?
E saberei nomear o totem que tenho diante de mim, todas as horas do meu dia? Porque antes de destruí-lo, preciso dizer seu nome, transformá-lo em som concreto, que será propagado pelo vento e percorrerá toda a terra até desaparecer.
O gato (que é a solução para a resistência) só pode acontecer se cada um souber nomear seu próprio totem.
E cada um está sozinho nessa hora.
Talvez por isso na reunião final houve uma certa atmosfera de fado português.
As relações que se cruzam, os seres que são atravessados, a lacuna que é o ser, o corpo que precisa se fazer existir, o ambiente subjetivo, as máquinas de fazer sentido, a crença, a epifania, o milagre, o gravíssimo, a desconstrução, a construção, a afirmação, o chão, o espaço e o tempo. O mapeamento de tudo isso. Obsessão.
Esses foram pontos cartográficos nos quais paramos. O mapeamento do cosmos é quase infinito, e a Oficina da Cabana foi um fragmento dessa tentativa. Porque sem um mapa, o espírito se perde no vácuo e no silêncio. Navegar à deriva no universo, sem pontos cardeais, é desesperador. É preciso que um louco obsessivo, ou um xamã, tome para si a tarefa de mapear o cosmos, que torne possível fazer alguma leitura dele, que faça algo saltar da cacofonia cruel do universo.
Na Cabana Solaris, Rubens Espírito Santo foi o xamã-cartógrafo, o ser que lançava seu espírito em vôo sobre a terra devastada e que voltava com as latitudes e longitudes das ilhas de paz e de tormento que só podem ser vistas do alto.
No final, acho que nós todos nos perguntávamos: serei capaz de levantar vôo e de construir meu próprio mapa? Serei capaz de reconhecer as coisas do alto, serei capaz de ver sem vícios? Serei capaz de nomear o que vejo, sem medo nem ansiedade? Serei capaz de ir para a lacuna, e depois voltar?
Um espírito soprou em meu ouvido no primeiro dos encontros: corpo.
E soprou no último deles: calor.
O calor é a prova de estar vivo, de existir.
Saberei o nome do meu totem quando sentir meu corpo queimar. E sei que nesse momento, bastará um sopro para que ele desabe de uma vez por todas.
Durante todo o processo da Cabana, joguei fora muitos cadáveres. Sinto-me mais leve por ter me livrado de parte da minha carga inútil. Mas outra parte está comigo, resistindo furiosamente e rindo das minhas tentativas de saber nomeá-la.
A Cabana Solaris ofereceu-me algumas estratégias. Através do caminho do xamã.
Ficar doente. Encontrar-se na lacuna. Alçar vôo. Mapear o território. Nomear as coisas. Nomear a doença. Curar-se.
E então, levantar e caminhar sob a luz do sol da manhã.













